AI-First: Produto – Core x Customização

“Não faça customização.” Era o mantra das últimas décadas

A lógica fazia sentido.

Customização gerava código específico.
Código específico gerava complexidade.
Complexidade gerava custo.
Custo destruía margem e escalabilidade.

Por décadas, treinamos founders para empurrar clientes para o produto padrão.

Mas AI vai quebrar esse paradigma.

Porque reduz drasticamente o custo de customizar algumas camadas do software.

E isso nos obriga a fazer uma pergunta diferente: “Em qual camada devemos customizar?”

Gosto de pensar que toda customização pertence a uma de cinco camadas.

A primeira é a interface. Como o usuário interage com o sistema: WhatsApp, Slack, dashboard, email, voz.

A segunda é o contexto. Os dados, documentos, políticas, histórico e conhecimento que alimentam a AI.

A terceira é o workflow. O jeito que o trabalho acontece, as aprovações, exceções e handoffs.

A quarta é a decisão. Como crédito é aprovado, fraude é identificada, preços são definidos ou recomendações são feitas.

E a quinta é o outcome. O resultado final que o cliente realmente compra: vender mais, cobrar melhor, contratar mais rápido, reduzir custos ou aumentar produtividade.

Historicamente, customizar workflow e decisão era extremamente caro. Por isso o mercado convergiu para produtos padronizados.

Mas AI reduziu radicalmente o custo de adaptar contexto, workflow e até decisões específicas para cada cliente.

Só que existe um segundo eixo: o economics da customização.

Porque customização nunca foi um problema tecnológico, sempre foi um problema econômico.

Toda customização deveria responder cinco perguntas.

Primeira: quanto valor ela captura? Quanto o cliente está disposto a pagar por ela?

Segunda: qual o custo de inferência? Quanto custa operar essa experiência todos os dias?

Terceira: qual o custo total de propriedade? Quanto código, manutenção e complexidade adicional estamos criando?

Quarta: quanto trabalho humano continua necessário? Quantos FDEs, onboarding specialists, consultores ou operadores permanecem no loop?

E quinta: o que estamos aprendendo? Essa customização melhora a plataforma ou cria uma bifurcação permanente do produto?

Essa última pergunta é muito importante.

Porque existem customizações que aumentam receita e fortalecem o produto.

E existem customizações que aumentam receita enquanto silenciosamente destroem a plataforma.

Por isso acredito que AI não está eliminando o trade-off entre software e serviços.

Ela está deslocando esse trade-off.

O que antes era impossível passa a ser viável.

O que antes destruía margem pode passar a criar valor.

Mas a pergunta fundamental continua a mesma:

Essa customização gera mais valor econômico do que consome?

O SaaS ensinou uma geração inteira de founders a fugir da customização.

AI talvez esteja ensinando a próxima geração a escolher cuidadosamente onde customizar.
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